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Quinta Março 11 , 2010

Um mundo cada vez mais ex-masculino

Um mundo cada vez mais ex-masculinoA participação da mulher aumentou em 200 milhões na última década, segundo a Organização Mundial do Trabalho.

Há 1,2 bilhão de mulheres no mercado, enquanto há 1,8 bilhão de homens. Nos Estados Unidos, elas representam metade da força de trabalho. No Brasil, em 1935, 33% das mulheres disputavam mercado com os homens; hoje, 5º% disputam. Em 1991, 18% das mulheres chefiavam seus lares, em 2007, 33% delas já faziam isso.
Outros dados sobre a diferença entre o universo masculino e o feminino foram apresentados pela diretora executiva de jornalismo da CBN, Mariza Tavares, que mediou o debate “Uma nova liderança: um novo mundo sob a ótica das mulheres”, durante o Congresso Nacional das Relações Empresa-Cliente (Conarec).

“As mulheres tem mais estudo do que o homem em número de anos – nove contra oito. Porém, o salário delas é perto de 70% do que eles ganham”, comentou Mariza.

Segundo pesquisa do Instituto Ethos, há 11 mulheres em cargos de gestão para cada 100 executivos homens e somente 39% das negras estão em cargos de gestão.

Em contra partida, o poder da mulher pode ser percebido em outros cenários, segundo dados de um estudo feito pela agência Leo Burnett: 80% delas são responsáveis pelas decisões de compra e uma em cada quatro mulheres ganhava mais que seu companheiro.

Apesar de tantos números, o objetivo do debate foi o de “compartilhar experiências sobre como sobreviver no mundo cada vez mais ex-masculino e cada vez mais feminino”, afirmou Mariza.

Um mundo cada vez mais ex-masculinoPara Christina Carvalho Pinto, presidente da Full Jazz, ser presidente de uma companhia não é sinônimo de liderança. “Liderança tem um sentido de poder e está ligado à liberação de fontes internas de autoridade e a mulher está preparada para isso”, disse. “Existem pesquisas que apontam a razão porque a mulher é minoria em cargos de poder: elas fazem mais opções equilibradas. No fundo, elas são audazes e começam a indicar - tanto para homens quanto para mulheres – um caminho novo.”

Para a executiva, liderança é sinônimo de audácia e escolhas. “Liderança começa com a liderança da nossa existência.”

Eliana Aere, diretora de RH da Ticket, acrescentou que tudo é uma questão de luta e determinação. “A mulher é líder por natureza. A maioria dos lares é liderada por mulheres, seja no campo educacional, seja no campo financeiro”, comentou. “Essa luta tem dois mil anos, quando a mulher começou a ganhar mais espaço de participação na sociedade por conta das atitudes de um homem, Jesus. Não falo de religião, mas de história. Ali ela começou a ganhar espaço para competir de igual para igual e aí entra a questão da liderança nata e da capacidade, e as condições devem ser as mesmas para todos.”

Na visão de Eliana, muitas mulheres abrem mão de brigar para ocupar altos cargos de liderança, ocupados em sua maioria pelos homens, porque teriam que ceder em muitos pontos e porque querem ter tempo para cuidar de suas vidas. “Por isso, o debate tem que ser o que representa ser líder dentro da empresa”, disse.

Para Elaine Ferreira, presidente da Altitude Software, contar com equipes heterogêneas de trabalho é o que mais agrega valor – nem tanto feminina nem tanto masculina. Porém, na atual era de serviços, na qual a criatividade e a inteligência emocional tem mais destaque do que a racionalidade da era industrial, o público feminino sai em vantagem. “A mulher trabalha fortemente seu lado emocional, além de gostar e saber trabalhar em equipe”, disse.

“Sempre convivi com homens. Fiz Getúlio Vargas, fui trabalhar em bancos de investimento, tive duas chefias masculinas com as quais aprendi como não chefiar e tive outra chefia masculina, que considero meu guru. Ele tinha um lado emocional muito forte e humildade e disposição de aprender, que são fundamentais”, contou a executiva.

Sem ser utópica ou “glamourizar” a tarefa de uma CEO, Elaine completou que a vida executiva é difícil. “É complicado conciliar tudo, por outro lado, nós mulheres conseguimos fazer coisas ao mesmo tempo e bem feitas.”

A grande “dica” de gestão de Elaine é trabalhar em equipe. “O papel da CEO é trabalhar e ter uma equipe que dá conta do recado, que execute, que seja capaz de fazer o que tem que ser feito, e que tenha compromisso com o líder. E o comprometimento é algo que se conquista, não se impõe; e a mulher tem mais facilidade para lidar com essa questão.”

Para Débora Freire, sócia diretora da DFreire Comunicação e Negócios, o ambiente atual é propício para o crescimento e desenvolvimento profissional da mulher. “Está em relevância o ‘cha’, que são: comportamento, habilidade e atitude; características femininas.”

Atitude foi uma das características criticadas no comportamento da mulher durante o debate. “A mulher é pouco demandante. Ela pensa que se for exemplar, entregar o resultado, o chefe vai se lembrar dela e vai dar um aumento. Ele não vai lembrar. Ela é quem deve buscar seu reconhecimento”, comentou Mariza.

“A mulher tem que abrir a boca, falar ‘eu quero chegar lá’. O homem faz isso com naturalidade. Não é uma questão de ‘pegar o lugar’ de alguém, mas de querer ocupar uma cadeira. E, além disso, ela tem que ter disposição e estar disponível para as demandas da empresa”, completou Eliana.

Para conquistar um cargo de liderança, como o de CEO, as executivas comentaram que é preciso lutar. “Briguei muito para chegar onde estou e brigo para ficar. Já passei pela área financeira, pela área comercial, de tecnologia e de operações. Sou diretora de três empresas e cuido da área vertical de RH”, contou a executiva da Ticket. “É difícil para nós mulheres, porque às vezes temos que fazer o dobro para chegar lá. Mas se você quer, é preciso trabalhar, brigar e agüentar o tranco. Você quer uma posição maior? Então vai ter que ceder e negociar – com o marido, com os filhos, com os amigos”, completou.

Elaine, da Altitude Software, acrescentou que, em empresas sérias, cada profissional é medido por resultado. Com a mulher não é diferente. “Para atingir os resultados é muito difícil, você trabalha muito, principalmente no mercado atual que é cada vez mais competitivo. E você vai ter que conciliar trabalho, casa, marido, o papel de mãe e mulher, além da vontade de crescer na carreira”, disse. “Trabalhe com o coração e com objetivos definidos, mostre o que você quer e onde quer chegar. Temos o poder de ‘bater o pé’ não só na vida pessoal, mas na profissional também, claro que respeitando as regras corporativas.”

“Você tem que ser inteira no que acredita. Não adianta se submeter a algo na carreira e que você não quer, não está por inteiro, porque dessa forma você não alcança o sucesso”, completou Christina.

“Tem que pagar o preço. Tem o ônus e o bônus. Se fosse fácil, teríamos muito mais exemplos de lideranças femininas. Ninguém falou que seria fácil”, concluiu Débora.
 
Estilo próprio

Nada de discutir se no mundo corporativo a mulher deve vestir calça ou saia, ou seja, adotar um comportamento de gestão à moda masculina ou feminina. “Sou mulher porque nunca senti a necessidade de me parecer com alguém”, comentou Christina. “Além disso, o modelo de gestão masculina voltado simplesmente a metas e resultados financeiros deve ser substituído por outro equilibrado. E a mulher entra nesse cenário voltada para processos, para o ‘como’ temos que chegar lá, ‘como’ alcançar tais metas”, disse.

Para Elaine, da Altutide Software, nada de copiar o modelo masculino de liderança. “Porque homem e mulher são diferentes, inclusive em termos de gestão.” A dica da executiva é olhar para si mesmo, para sua trajetória, e ver nos pontos de sucesso as características que estavam presentes e traze-las para o dia a dia da gestão. “Você cria e imprime o seu modelo de gestão.”
“Crie o seu estilo”, reforçou Eliana, da Ticket. “Nem tudo o que a moda dita vai ficar bem em você. Na gestão é a mesma coisa”, comentou. “Não copie, mas se inspire e extraia o que é melhor de outros exemplos e modelos de gestão, e crie o seu estilo”, concluiu.

Por Tatiane Alcalde

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